segunda-feira, 3 de março de 2008

O colega do lado

Achei este texto interessante e queria compartilhá-lo.. boa semana!!

por Maria João Lopo de Carvalho

Gramamos a família porque a hereditariedade nos impõe, gramamos o marido (ou

a mulher) porque o escolhemos de livre vontade, mas gramamos os colegas de

trabalho porque nos calham na rifa e temos de levar com eles em cima, a bem

ou a mal, na melhor das hipóteses, oito horas por dia. Ou seja: a família,

quando muito, aos domingos e feriados; o marido e os filhos, duas, três

horas por dia, no máximo (metade das quais a ver televisão ou a partilhar

tarefas domésticas); e os outros, para os quais não fomos ouvidos nem

achados, dispõem de mais tempo e de mais espaço do que toda a nossa vida

somada. É com eles que rimos, choramos, que nos irritamos, que amuamos, que

lixamos ou somos lixados, que vamos à bica e às compras, é a eles que

avaliamos, que ajudamos, são eles os nossos carrascos e cúmplices, os nossos

amigos ou, pior, os nossos principais inimigos. É no trabalho, acho eu, que

revelamos as nossas grandes capacidades e virtudes, mas também, e como há

tempo para tudo, o pior que o ser humano tem: a inveja, o rancor, a gula

(roubo todas as caixas de chocolates onde os meus olhos vão parar), a

vaidade, a intriga, o orgulho, a luxúria (enfim, todos sabem como e porquê.

'Ai, você hoje está linda...', 'Acha dr?', 'Não acho, tenho a certeza,

brilha como a lua).

O ambiente de trabalho é assim, muitas vezes, uma impiedosa arena do circo

romano onde se mata quem é fraco, sobrevive quem é forte. É esta a tragédia

da questão. Competitividade e matança são armas letais de significado

idêntico - desafie-se o poder! Mas como perder ninguém quer, ligamos a

competição à ambição (a longo prazo) e à ganância (a curto prazo), tudo em

circuito fechado, para que a via-sacra da matança seja forte demais e

excitante demais para a conseguirmos abafar. (...)

Há sempre um gajo porreiro em que nós escudamos e que, de facto, não nos

quer tramar às primeiras; um gajo que tem dias e que ora amanteiga para

direita, ora amanteiga para a esquerda - é o gajo que quando a coisa corre

bem foi ele próprio que a fez (é 'muita bom'), quando corre mal, fomos nós,

pobres inexperientes e ele até se fartou de nos avisar, infelizmente não

acreditámos no seu teatro.

Adoro a tribo dos manteigueiros frenéticos: aqueles que só saem depois do

chefe nem que fiquem a jogar paciências no computador, que nos desfazem em

strogonof pelas costas, que controlam as nossas entradas e saídas de cena,

bichanam com os seus superiores e ajustam contas com as secretárias e o

pessoal, a quem com tanta alma chamam 'menor', baralhando sem pudor

humilhação com humildade. Prefiro o folclore dos que gritam como ovelha a

ser degolada mas que depois se redimem ao acrescentarem uns parágrafos

triunfais na 'porra' do dossiê.

Nós os portugueses adoramos reunir. Podemos não fazer a ponta de um corno,

mas reunir tem de ser. Basta reunir e já está! Não é nunca o ponto de

partida, é sempre o ponto de chegada. E antes de reunir gostam de planear a

estratégia para tramar o parceiro. Pode não haver estratégia para mais nada,

mas para tramar o colega do lado aqui vai disto.

Agressividade quanto baste é a metodologia (odeio esta palavra) para chegar

ao poder. Todos conhecem a cartilha, a cru ou disfarçada de fada boa.

Em suma, os portugueses acham que para serem melhores têm de arranjar alguém

para mau da fita, é a teoria dos vasos comunicantes em todo o seu esplendor.

É com 'vasos' destes - que à partida não são nem amigos, nem filhos, nem

marido, nem sequer os escolhemos num menu - que temos de partilhar o cheiro,

a voz, e o génio; das ramelas, à barba por fazer; das malhas na meia ao

rímel esborratado, todas as horas, todos os dias, todos os anos. É tudo uma

questão de 'ambiente' no trabalho!